Todo Carnaval

Novembro 6, 2008

Talvez a gente sonhasse demais. Eu queria ver o mar e ele queria vagar por aí. Eu queria ler “Ulisses” e ele queria conhecer a Índia. Seguíamos assim, não era bom, mas que mal tinha? Tínhamos coisas em comum, inclusive alguns desses sonhos jovens demais, inconseqüentes demais. Um barquinho, um verão ameno, uma casa de campo, uma noite na serra-lareira-vinhos-músicas-livros, tudo.

As noites eram nossas. As ruas também. Deitados na grama colhendo estrelas, batizando vaga-lumes, pensávamos no que queríamos ser quando morrêssemos: anjos, arcanjos, deuses, demônios… Lembro-me de que queríamos fazer um trato com Deus: um dia no inferno. Seria divertido.

Em um certo momento de nossa vida-em-comum fizemos o trato de não mais querer entender os outros, nem a nós mesmos. A felicidade veio de trem. Sozinhos sempre fomos, solitários às vezes, solidários nunca, não éramos do tipo que dava palavras amigas como esmola para ganhar a redenção e o título de melhor-amigo-dos-fracos.

Perguntei pra ele numa tarde quente, deitados no sofá, vendo besteiras na TV, o que ele queria ser quando crescesse. Respondeu que não queria, ele seria. Ele queria ser músico, construiu um violão, queria ser escritor, fez uma biblioteca com suas histórias, ele era tudo o que queria, o que eu queria.

Decidimos não nos levar a sério demais, levar o sério demais, levar sério demais, queríamos levezas. Não apenas almejávamos, tínhamos, éramos. E quem poderia nos parar? Quem precisa de casamentos, casa, cachorros, vizinhos chatos, contas a pagar quando se pode vagar até ir além, varar noites, voltar no mês seguinte ou nunca mais?

Eu dei pra ele uma flor de cerejeira que peguei no Japão. Sempre gostamos de lá, achávamos aquilo lindo demais, toda filosofia, todas as cerejeiras. Foi meu presente mais sincero, era presente demais. Ele me deu um pote com um coração. Coração é uma coisa estranha, órgão feio, chegamos à conclusão numa tarde de que não mais falaríamos em corações e sim “te amo do fundo do meu cérebro”.

E assim fomos até o fim e ele chegou como chega para todos. Chegou quando tinha que chegar. Fomos felizes até onde pudemos. Seguimos sonhando.

Dor

Outubro 29, 2008

Deve ser a febre e um pouquinho de saudade

Se já não engoliu, ainda está em tempo. Mas eu creio que algo já se forma aqui, uma coisa irreversível, entende? Deve ser o único lugar do planeta onde certas coisas acontecem. Um lugar onde quem não se droga, acaba enlouquecendo ou se matando. Os entorpecentes são necessários para escapar dessa realidade irreal, dessa dormência.

Um lugar onde a dor não é muito crível, onde as relações são inconstantes e estão sempre por um fio de superficialidade. É preciso cortar-se para se sentir vivo, arremessar um carro contra a árvore, parar de deixar o ar seco entrar nos pulmões.

A falta de esquinas é quase insuportável, os lugares aparentemente lotados com um jeito de deserto. Ninguém te olha nos olhos e quando o faz, assusta. Tudo tem um quê de hospital, muito anti-séptico, muito limpo e indolor. A única vontade aparente em alguns é a de fugir, para um lugar com um pouco mais de vida.

Um buraco negro, talvez. Essa falta de vontade, a preguiça. Não existem heróis e nem bandidos. Acabamos todos muito parecidos. Usamos as mesmas roupas, as conversas não variam, os lugares também não. Parece que tudo continua na mesma, por mais que o tempo passe.

Certa vez me disseram que Brasília funciona como uma assinatura de revista semanal e que todo final de semana chega sempre o mesmo exemplar. Não discordo. A única coisa que eu espero é a chuva, novidades não vêm.

O estranho é que a cidade lança uma espécie de encantamento, um feitiço ou coisa que o valha nos que nela moram. Tornam-se dependentes. Acho que é a lógica das ruas que exerce esse tipo de efeito nas pessoas ou o céu. Podemos não ter nada aqui, mas temos o céu.

Meu caso de amor é complicado: eu amo e odeio. Gosto quando estou longe, quero escapar quando estou nela. Um certo desespero me invade nas tardes de domingo, no mês de agosto, nos dias santos. O ócio não me faz bem nessa cidade. Viver aqui é perigoso.

Deve ser por isso que os prédios residenciais são baixos e os edifícios mais altos tem grades de proteção nas janelas. Tudo colabora para o salto. A falta de umidade acelera as reações.

Acredito que, em breve, o tédio vai engolir Brasília.

Atrasado

Outubro 12, 2008

Aquela seria a última vez que eu me encontraria com ele. Mesmo sem precisar dizer nada, eu já sabia. Mesmo querendo desacreditar nisso, não tinha mais jeito. O lugar nem era legal, nossa conversa foi estranha. Ele distante e eu querendo penetrar naquele mundo, sem poder.

A música me incomodava. O fato de eu olhá-lo e ele desviar os olhos pro relógio, pra televisão, pro prato, pras outras pessoas me matava aos poucos.  Eu já sentia a dor. O cheiro de fritura que se misturava com o perfume de todos os presentes, me deixava enjoada. Aquilo tudo me fez ficar tonta.

Eu estava perdendo uma pessoa amada, ali diante dos meus olhos. Nada mais fazia sentido e eu tentava desesperadamente não deixá-lo escapar, em vão. Algo tinha acontecido e eu nem sabia o quê. Naquela noite ele já não era mais meu, aliás, não era desde que eu tinha ido embora numa outra madrugada. E eu me enganando o tempo todo “Isso vai ter jeito sim.”

Não teve. As coisas não estão sob nosso controle, nós que estamos sob controle de algo. No meu caso, o azar comanda tudo. Sempre conhecendo a pessoa certa no momento errado da vida dela. E isso me mata.

Um ano depois de todo aquele sofrimento, ele me liga e fala um monte de bobagens e eu já não era mais dele. Não suportei as besteiras, as brincadeiras que já eram sem graça ficaram piores com a minha falta de sentimento. Por que ele tinha que me ligar? Só pra eu provar para ele meu desamor?

Ele tinha acabado de chegar na hora errada. Se fosse no dia 18 de maio de 2006, talvez eu teria ido, mas no dia 18 de maio de 2007 a única coisa que eu queria era voltar pra casa, pros meus pais, pros meus amigos. Ele já tinha sido enterrado e me ligou tarde demais para tirá-lo do mundo das pessoas-que-eu-deixei-de-amar. Azar…

Clarice que disse

Outubro 7, 2008

“Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada… Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro…”

Qualquer dia

Outubro 6, 2008

Qualquer dia eu desisto desse negócio de querer bem. Aí eu quero ver.

Subtítulo

Outubro 5, 2008

Coloquei minha dor no bolso esquerdo da calça e fui fazer o que tinha que ser feito

Das flores

Outubro 2, 2008

Só ficou o que já havia, mastigamos tudo aquilo que nos foi dado. Já está processado, não tem jeito. Já faz parte de nós dois. Teremos que continuar assim. Inovando? Mas tudo já foi feito.

Já fomos jovens, hoje somos estatísticas: fumantes, consumidores de drogas, alcoólatras, portadores de DSTs, desempregados. Seria mais interessante se morressemos. Pelo menos não gastaríamos tanto dinheiro do governo para curar nossos vícios, deixaríamos de pixar monumentos e de bater nossos carros contra os postes e árvores do Eixo.

Das flores só ficou o cheiro, um gosto meio amargo na boca e nossos dentes um pouco avermelhados.

Gostaria

Setembro 29, 2008

Minha vontade de ser detentora de palavras bonitas é maior do que eu, mas como conseguir isso se nem a minha letra consegue ser esteticamente aceitável?

Primeiro dia da semana

Setembro 28, 2008

Sempre pensei que domingo fosse o último dia da semana. Quer dizer, até a professora do Jardim me ensinar que domingo é o primeiro.  Nunca concordei muito com isso. Se for o primeiro, então significa que toda semana começa meio preguiçosa, meio entediada e, às vezes, até um pouco deprimida? Acho essa idéia bem errada. Eu quero escolher o dia em que minha semana começa. Por que que ela tem que ter apenas 7 dias ou por que ela tem que ter 7 longos dias? Não quero divisão do tempo pré-estabelecida, eu quero fazer minhas semanas, meus dias, meus anos, tudo isso.

Os domingos têm cara de domingo e alguns dias da semana, às vezes, tem essa mesma feição.  Que poder tem esse tal de “primeiro dia da semana”, não? Mas hoje meu domingo está com cara de feriado e eu gosto de feriados.